Suinocultura 2020: Independente lucra, integrado nem tanto

Suinocultura 2020: Independente lucra, integrado nem tanto

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Foto: Divulgação

Levantamento dos custos de produção de suínos, realizado pelo Sistema FAEP/SENAR-PR, revela o quadro da atividade no Paraná em 2020

Em um ano como 2020, que trouxe novos desafios para a produção e a comercialização das carnes, o levantamento dos custos de produção da suinocultura, realizado pela o Sistema FAEP/SENAR-PR, tem importância adicional. Ao dimensionar o impacto destas mudanças na atividade produtiva, é possível descobrir oportunidades, vislumbrar o que pode vir pela frente, ou, ao menos, não perder dinheiro pela falta de informação.

“Foi um ano bem atípico, mas, no geral, um ano bom para a suinocultura. Apesar dos custos subindo bastante, o preço [do suíno] acompanhou. O suinocultor vinha bastante descapitalizado. Agora, com esse aumento de receita, esse ganho a mais, o suinocultor vai colocar sua situação financeira em ordem. A grande maioria está fazendo contas, pois vinha de um déficit muito grande na atividade. Esse ano, esses produtores conseguiram amenizar seus compromissos financeiros”, avalia Reny Gerardi, presidente da Comissão Técnica da Suinocultura da FAEP.

A rigor, o levantamento de 2020 repete um fato observado em 2019: os produtores independentes melhor aproveitam o bom momento da suinocultura no mercado. Vale lembrar que há dois tipos de relação de produção: produtor no regime de integração (comodato) desenvolve a atividade em parceria com uma agroindústria, que arca com os custos de alimentação e medicamentos, além de garantir a compra da produção por um preço estipulado previamente; e o independente, que desenvolve a atividade por conta, sendo responsável por arcar com os custos da ração, da aquisição de matrizes, e comercializa a produção diretamente no mercado.

Os dados do levantamento mostraram que os produtores independentes conseguiram, neste ano, cobrir seus “Custos Totais” e aumentar a receita, mesmo diante dos altos preços do milho e da soja, principais insumos da alimentação animal. Do lado dos integrados, a situação não é tão vantajosa. A remuneração paga pelas agroindústrias cobre, quando muito, os “Custos Variáveis” da atividade. Sem recursos para reinvestir, a tendência é que, no médio prazo, esses últimos produtores deixem a atividade.

“Em linhas gerais, o levantamento mostrou que o mercado está bom para os suinocultores independentes, apesar da preocupação com o custo dos grãos para alimentação. No momento, o preço pago pelo suíno está cobrindo esse custo. Dentro da integração, vemos que o aumento no valor praticado no mercado não foi repassado para o valor remunerado dos integrados, da mesma forma que o aumento no custo dos insumos também não impactou as contas desses produtores”, avalia Nicolle Wilsek, técnica do Sistema FAEP/SENAR-PR e responsável por acompanhar a cadeia da suinocultura. “Porém, um fator que impacta fortemente o custo de todos os produtores, independentemente do modelo de produção, são os encargos trabalhistas (salário, insalubridade, EPIs, etc.), agrupamos na denominação ‘Mão de Obra’”, complementa.

Essa também foi a percepção do suinocultor Elói Favero, que desenvolve a atividade no município de Marechal Cândido Rondon, na região Oeste. “Houve um aumento significativo nos [preços] dos insumos e nos custos de instalação de equipamentos. Mas, o custo que mais impactou na minha atividade foi a mão de obra”, afirmou.

De fato, quando analisados os números dos “Custos Variáveis” nas diversas modalidades de produção, é possível observar que a participação do item “Mão de Obra” tem participação significativa na integração, enquanto que no sistema independente, a alimentação teve maior peso.

“Em 2020, tivemos uma situação de alto custo de produção, principalmente em função do alto custo do milho e da soja a partir do segundo semestre do ano, por conta da escassez do produto no mercado. O milho está num preço muito bom para o agricultor, porém proibitivo para o produtor de proteína animal. O mesmo vale para a soja”, avalia o suinocultor Wienfried Matthias Leh, que atua em Guarapuava e Pinhão (região Centro-Sul).

Atuando de forma independente com um total de 3,6 mil matrizes, Leh observa que os bons preços do suíno se deram em função do câmbio valorizado e das exportações aquecidas. “Conseguimos realizar um bom preço. Neste momento boa parte dos produtores está num ponto de equilíbrio em relação ao custo e ao preço do quilo produzido”, observa, referindo-se à rentabilidade da atividade.

Quando analisados os números de 2020 em relação àqueles do ano passado, algumas variações são impressionantes. É o caso da receita em relação ao “Custo Operacional” no sistema de ciclo completo (independente) avaliado nos Campos Gerais. No painel de 2019, ao subtrair o saldo da atividade pelo seu “Custo Operacional”, a receita por quilo de suíno vivo era de R$ 0,44. Em 2020, esse número saltou para R$ 3,17, uma variação de 1.368%. Isso se explica pelo preço do quilo do suíno que passou de R$ 4,30, em 2019, para R$ 8,50, em 2020 (variação de 97,7%), enquanto neste mesmo período o “Custo Operacional” variou apenas 32%.

Levantamento

O levantamento dos custos de produção da suinocultura percorreu as principais regiões produtoras do Estado (Oeste, Sudoeste e Campos Gerais) realizando painéis com a participação dos suinocultores, em diversas modalidades de produção: Crechário (unidade que recebe leitões desmamados e recria até a terminação); UPL (Unidade Produtora de Leitões, que atua da maternidade até a saída da creche); UPD (Unidade Produtora de Leitões, que atua da maternidade até o desmame); UPT (Unidade Produtora de Terminação, que recebe leitões da UPD ou do Crechário e realiza as fases de crescimento e terminação até o abate) e Ciclo Completo (unidade que executa todas as fases da criação, desde a produção de leitões até a terminação para o abate), tanto no sistema de integração, quanto na produção independente.

Em 2020, por conta da pandemia do novo coronavírus, foi realizado apenas uma rodada de reuniões para coletar as informações. Nos anos anteriores, foram feitas rodadas em dois momentos (primeiro e segundo semestres). Os encontros foram realizados de forma online e em alguns sindicatos rurais nos municípios com maior representatividade na produção de suínos: Castro (Campos Gerais), Pato Branco (Sudoeste) e Toledo (Oeste). Participaram destes encontros produtores, revendedores de equipamentos e insumos, representantes de indústrias e de cooperativas.

Levantamento ajuda produtores a negociar nas Cadecs

Os números do levantamento de custos promovido pelo Sistema FAEP/SENAR-PR são importantes para tecer uma visão ampla e abrangente da atividade. Além disso, são ferramentas de negociação, principalmente no caso dos suinocultores que atuam no regime de integração (comodato), que precisam negociar constantemente com as agroindústrias.

Desde 2016, quando foi aprovada a Lei 13.288/2016, essas discussões entre produtores integrados e agroindústrias integradoras acontecem nas Comissões de Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadecs), espaços voltados à negociação equilibrada e diálogo entre as partes, formados pelo mesmo número de representantes da indústria e dos produtores.

O Sistema FAEP/SENAR-PR apoiou a aprovação da legislação e incentivou a criação de Cadecs junto às unidades agroindustriais de modo a trazer mais segurança e transparência às relações entre integrados e integradoras. Por meio do SENAR-PR, foram criados cursos para negociações e condução de reuniões voltados às atividades nas Cadecs.

“A FAEP tem ajudado muito o produtor de suínos, contribuindo para organizar a cadeia produtiva por meio das Cadecs. E isso tem reflexo nos produtores independentes. A Federação tem esse papel de interferir para proteger essas categorias quando existem dificuldades”, observa o presidente da Comissão Técnica da Suinocultura da FAEP, Reny Gerardi.

Em maio desse ano, por meio das ações da Cadec criada junto à empresa JBS Foods de Carambeí (Campos Gerais), os produtores da unidade conseguiram um reajuste no preço recebido pelo leitão. Casos como esse são cada vez mais corriqueiros no Paraná.

“Esse ano tivemos alguns ajustes justamente através da Cadec”, afirma Gerardi, que participa da Cadec formada junto à unidade de BRF de Toledo (Oeste). “Tivemos um ganho de 20% ao longo do ano”, comemora. “Não foi o mesmo ganho do produtor independente, que aproveitou um bom momento, mas foi uma vitória”, completa.

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