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Conheça a história da Quinina, planta que deu origem à hidroxicloroquina, medicamento que vem ajudando no enfrentamento do covid-19

Tiago Firmino – Em 2020, no início do enfrentamento do novo Coronavírus, uma medicação conhecida mundialmente ganhou novamente grande notoriedade. O quinino foi amplamente recomendado durante o enfrentamento da Gripe Espanhola entre 1918 e 1920 há 102 anos (Figura 1 e 2), como um medicamento preventivo ao ataque do vírus. Mas foi em 1938 que a molécula foi sintetizada pela Bayer. A história vai muito além, e eu pretendo a seguir, contar um pouco dela.

Nas figuras a seguir, pode ser observada a indicação dos sais de quinino e a dose, como preventivo à Gripe Espanhola. Falar de Cloroquina no combate ao corona vírus hoje é como reinventar a roda 500 anos depois.

FIGURA 1: Recorte de jornal da época da Gripe Espanhola (1918 – 1920).
FIGURA 2: Recorte de jornal da época da Gripe Espanhola (1918 – 1920).

O intuito aqui não é falar do medicamento e nem do vírus e sim da planta e sua história. Mas antes tenho que relembrar alguns assuntos importantes e espero que você tenha paciência até chegarmos lá!

Nas figuras a seguir pode ser observada a indicação dos sais de quinino e a dose, como preventivo à Gripe Espanhola. Falar de Cloroquina no combate ao corona vírus hoje é como reinventar a roda 500 anos depois.

Um grande debate surgiu em vários países quanto ao uso desta medicação já que, por tratar-se de um vírus novo, não teria estudos suficientes para recomendação da medicação.

Alguns estudos recentes e pouco conclusivos sugerem a associação da hidroxicloroquina com Azitromicina (um antibiótico de largo espectro), Zinco e Vitamina D (produzida naturalmente na pele através da exposição à luz do sol). É de conhecimento que tomar sol regularmente é essencial para garantir a produção de doses adequadas de vitamina D já que pela alimentação, esta vitamina não chega em níveis suficientes. A vitamina D aumenta a absorção de Cálcio e Fósforo pelo intestino garantindo assim a reparação celular e crescimento ósseo. Além disso para o correto funcionamento celular e neuromuscular torna-se essencial a correta nutrição por Ca e P. Algumas pesquisas sugerem ainda que a vitamina K2 é fundamental para o perfeito funcionamento da vitamina D. Vale ressaltar que ainda não há até então, vacina contra o vírus, e que este medicamento associado à azitromicina e algumas vitaminas e minerais torna-se um potente anti-inflamatório.

Cinchona nitida quinine / Foto: Autor

Vou abrir aqui um parágrafo para um importante e moderno movimento no Agronegócio que vem de encontro com isso. Cientistas estão trabalhando com enriquecimento nutricional dos alimentos, seja pela genética ou seja pela aplicação de determinados nutrientes minerais nas plantas. Num futuro próximo poderemos ter a escolha de comprar e optar por alimentos com maior teor e qualidade nutricional.

Voltando ao assunto, já que vírus não tem vida própria, precisa invadir as células e “escravizá-las” para que se multiplique. Ao se reproduzir dentro da célula do nosso corpo, a célula explode, liberando então os novos vírus. Este processo causa de certa forma, um colapso no corpo humano, baixando a imunidade e um processo inflamatório. No caso específico do corona vírus ocorre principalmente nas células pulmonares. Daí o motivo de algumas pessoas precisarem de respiradores pulmonares, um processo inflamatório grave no pulmão gera insuficiência respiratória. É aí que o medicamento age, evitando o processo inflamatório principalmente. As associações indicam ação dentro das células para que o vírus tenha dificuldade em se reproduzir principalmente pela ação do zinco (Zn).

Vale ressaltar que este medicamento foi largamente e unicamente usado no tratamento da malária, no norte do Brasil principalmente nos últimos 70 anos desde o início da construção da transamazônica durante o regime militar. Há relatos nos diários de Juscelino Kubitschek sobre o enfrentamento da Malária. Recentemente em 2016 a Cloroquina foi indicada no controle do Zica vírus no tratamento da Microcefalia. Além disso nas últimas décadas seu uso foi praticamente limitado a tratamento de febre, antitérmica, antimalárica e analgésica. Não necessitando de receita médica para utilização, houve grande procura quando as primeiras notícias foram publicadas sobre a ação do medicamento sobre o novo Coronavírus.

Até a presente data, pode-se observar na FIGURA 3 a seguir que, o medicamento está sendo usado como preventivo ao coronavírus em boa parte do planeta. Até o momento apenas 2 países estão usando de forma profilática, no Brasil estão iniciando os testes em casos leves.

FIGURA 3: Países que adotaram oficialmente a Hidroxicloroquina contra o Covid-19 até o momento.

Durante os primeiros anos da minha graduação em Agronomia participei de um projeto de implantação de um banco de germoplasma de plantas medicinais. Naquela época visitei várias residências, coletando, além das plantas medicinais, tradições, várias histórias pessoais, histórias locais, estórias antigas e até histórias bíblicas!

Quase todos os medicamentos são precedidos de uma planta medicinal e os conhecimentos sobre ela. Podemos destacar a utilização de 3 formas de princípios ativos, sendo:

  1. A própria parte da planta natural (com riscos de super ou subdosagem bem como contaminação e até erro de identificação da planta correta);
  2. Existem também os fitoterápicos que são industrializados e eliminam o risco de contaminações por micro-organismos e outras substâncias, bem como, maior padronização já que a planta tem diferentes concentrações do ativo que se deseja ao longo das estações do ano;
  3. Por fim temos os ativos sintéticos que são apenas o medicamento desejado e em concentrações conhecidas.

O importante aqui como já disse anteriormente não é o medicamento nem o vírus e sim a história da planta. Vamos lá!

O inglês William Henry Perkins, após tentativa frustrada de sintetizar a quinina, em 1856, acabou sintetizando uma substância corante a partir da anilina, chamada anilina púrpura ou mauveína. Nesta época importantes indústrias químicas surgiram principalmente em função da produção de corantes sintéticos, como o azul de metileno, para estudos e visualização de microrganismos. Além disso, surgiu um novo ramo onde foi possível sintetizar e ou alterar moléculas, criando então, um novo ramo que era a produção de medicamentos. Surge então as grandes empresas Basf, Bayer, Agfa e Hoechst e, na Suíça, Geigy, Ciba e Sandoz.

Em 1934, a Bayer desenvolveu a resochin e um derivado sontochin que na segunda guerra mundial ficou conhecido como Cloroquina. Mas a história anterior é mais interessante.

Cinchona ledgeriana era naquela época a planta usada na produção de quinina e havia um monopólio de suas plantações na região de Java. Durante e após a primeira guerra mundial com a Gripe espanhola e uso intenso da quina para que os soldados entrassem em áreas com malária a elevada demanda das cascas da planta levaram a uma corrida pela sintetização da molécula dando origem então ao primeiro medicamento sintético da quinina.

Duas lendas são interessantes, uma conta que um soldado contaminado com malária bebeu uma água amarronzada onde havia árvores de quinina caídas e que ao acordar notou sua febre curada. Este então atribuiu à planta sua cura e espalhou a notícia.

A outra lenda reza que os animais doentes ao beber a água das lagoas que tinham árvores de quinina se curavam.

Mas os primeiros registros oficiais da planta são do ano de 1633 quando o jesuíta chamado Padre Calancha descreveu as propriedades da árvore: “Uma árvore cresce, que eles chamam de árvore da febre, na região de Loxa, cuja casca tem cor de canela. Quando transformada em pó, juntando-se uma quantidade equivalente ao peso de duas moedas de prata, e oferecida ao paciente como bebida, ela cura febre e … tem curado miraculosamente em Lima.”

Para tratar e prevenir da Malária recorrente na região do Peru começaram então a usar as cascas da árvore. Mas foi em 1645 que a planta foi levada à Roma e após 10 anos chegou à Inglaterra. Nota-se então sua importância histórica e na prevenção de doenças por longos anos.

Originária do Brasil em lugares úmidos da Mata Atlântica e da Amazônia a quina, Coutarea hexandra é uma das plantas que deu origem ao medicamento. Tem os seguintes nomes populares: Cinchona, Quina, Quinino, Cinchona-vermelha, Casca-peruana, Casca-dos-jesuítas, Quina-do-Amazonas, Quina de Pernambuco, Quina-Quina, Quina do Piauí, Quina do Pará, Quina de Dom Diogo, Quineira e Quinabranca.

Dentre suas propriedades a quina: é adstringente, anti-inflamatória, antimalárica, cicatrizante e tonificante como principais características. Também na crença popular a entrecasca na forma de chá é um antinociceptivo que reduz a percepção da dor, ou seja, um potente analgésico que foi comprovado em estudo bem como um anti-inflamatório. Estudos comprovaram algumas propriedades abortivas devido à reabsorção fetal, porém esta propriedade não se deve ao quinino e sim aos outros compostos da planta.

A espécie foi identificada em todas as regiões do Brasil, podendo também ser encontrada no México, América do Sul e Central. Foi encontrada associada a vegetação de campo rupestre em solo argiloso, a 780 m de altitude. Na Bahia floresce entre dezembro e janeiro e frutifica em março. Não foram encontrados estudos de quando ela tem maior concentração de óleos e ativos.

Curiosidades da Quinina

  • A água tônica também é feita com um pó branco extraído da casca da árvore de cinchona que dá o gosto amargo característico ao produto.
  • Existe o vinho quinado, trata-se de uma espécie de vinho onde foi adicionada a quinina, recebendo assim propriedades que tratam a febre, malária e a falta de apetite.
  • Além de diversas características terapêuticas a planta também é usada como planta ornamental (Imagem1).
  • Os principais ativos são alcaloides, flavonoides, cumarinas, essências, princípios amargos, quinino e taninos.
  • Um estudo para avaliar extratos de plantas no controle de Aedes aegypti foi observado que o extrato puro de Coutarea hexandra foi letal às pupas de Aedes aegypti, mas não à fase larval.
  • A espécie Coutarea hexandra é amplamente distribuída no Brasil, ocorre também em alguns levantamentos da flora da caatinga em Pernambuco.
  • Alguns autores classificaram essa espécie como secundária inicial que significa ser uma planta que ressurge com rapidez em áreas que sofreram degradação.
  • Na caatinga a participação da espécie foi de aproximadamente 7% da densidade relativa em um estudo realizado.

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Tiago Firmino Boaventura de Oliveira
Engº Agrônomo na empresa Café Brasil
MBA em Marketing Fundace/USP Ribeirão Preto.

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